Ano novo
Sobre o que pode acontecer em 365 dias
Jesus contou-lhes esta história: “Um homem tinha uma figueira plantada em sua propriedade, mas na época de figos não havia um fruto sequer. Ele disse ao agricultor: ‘O que está acontecendo? Há três anos tento colher figos desta árvore e nada. É melhor cortar. Por que desperdiçar terra boa?’
“O homem lhe pediu: ‘Vamos dar a ela mais um ano. Vou cavar ao redor e jogar adubo. Talvez comece a produzir no ano que vem. Se não der nada, vamos cortá-la”.
[Lucas 13.6-9, na versão A Mensagem]
Eu repito algumas resoluções de ano novo há, pelo menos, oito anos. Enquanto escrevo isso, me vem a lembrança de estar no mar com meu pai e meu irmão Davi na praia da Mococa, em Caraguatatuba (SP), no que eu acho que era o dia 1º de janeiro de 2018. Conversávamos sobre o que desejávamos para o ano novo, e acho que eu falei de mexer menos no celular, ler mais, escrever um diário e fazer exercício físico de forma mais regrada.
Se você me perguntar em 2026, a lista continua parecida. Algumas coisas mudaram, e se ficam na lista é pela manutenção: estou escrevendo o diário desde o ano passado (com algumas lacunas, mas quase firme e mezzo forte) e estou lendo mais desde que entrei na faculdade (agora já saí dela). O celular continua um grande problema, que às vezes consigo contornar aqui e ali, e o exercício físico é vergonhoso. Não sou uma pessoa sedentária, ando bastante e sempre que posso pego uma bicicleta. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa extremamente sedentária, sem uma rotina séria de atividade e com pouquíssima disciplina para manter uma. Já aconteceram períodos curtos de alguns meses em que eu conseguia, mas se alguém viesse me perguntar em qualquer dia dos últimos oito anos se eu sou uma pessoa que faz exercício físico, eu não teria coragem de dizer que sim.
Continuo insistindo. Todos continuamos. É difícil justificar racionalmente a esperança que vem com um novo ano, visto que os mesmos erros continuam se repetindo independentemente da mudança de calendário. Mesmo assim, ela continua. Hoje, quero defendê-la.
O evangelista Lucas relata uma história esquisita contada por Jesus aos seus amigos. Um homem tinha uma figueira que não dava frutos há três anos. Frustrado, ele pediu para seu jardineiro se livrar da árvore, que estava ocupando um espaço importante no pomar e se aproveitando da terra sem produzir nada. O jardineiro concorda com o diagnóstico, mas pede mais um ano: a planta vai receber cuidado especial. Se mesmo assim ela não der frutos, será cortada.
Ninguém sabe qual foi o fim da figueira, já que a história acaba aí. Como muitas parábolas de Jesus que acabam sem resolução, acho que ele está passando a bola para o ouvinte: a figueira vai frutificar ou não? Você decide.
Refletindo nesse texto no nosso primeiro culto do ano, meu pai chegou a uma conclusão óbvia, mas que eu nunca tinha tido: tudo pode mudar em um ano. A figueira pode passar a frutificar. Eu posso começar a ir pra academia. E, bem mais importante que isso: nos próximos 365 dias, eu posso me tornar a pessoa que Cristo vê em mim. Que honra, que benção, que privilégio. Tudo pode mudar. A gente pode mudar. Vamos pra cima, com a graça e a companhia do nosso Salvador.
Nesse primeiro post de 2026, quero compartilhar com vocês alguns filmes e livros que eu gostei muito de encontrar em 2025. Quem sabe eles não melhoram seu ano novo como melhoraram o meu velho! Aceito recomendações, sempre. Abraços, queridas e queridos!
LIVROS
A trama das árvores (Richard Powers, Todavia. Romance brilhante sobre as árvores e as pessoas que lutam para protegê-las)
O reino (Emmanuel Carrère, Alfaguara. Reconstrução dos primórdios do cristianismo por um cético. É lindo e virou post da newsletter)
The widening of God’s mercy: Sexuality within the biblical story (Christopher B. Hays e Richard B. Hays, filho e pai, Yale University Press. Meu livro de teologia favorito do ano, uma excursão pela Bíblia mostrando como Deus mudou de ideia durante antigo e novo testamento, sempre na direção da graça e da misericórdia, e como isso pode influenciar nossa relação com a comunidade LGBTQ+ hoje)
Exclusão e abraço (Miroslav Volf, Mundo Cristão. Brilhante livro de teologia sobre amar e abraçar o inimigo)
Doppelgänger (Naomi Klein, Carambaia. Um dos meus livros de não-ficção favoritos do ano, sobre a ascensão da extrema direita e como ela sequestrou pautas antes progressistas e as distorceu em teorias da conspiração)
História do novo sobrenome: Juventude (Elena Ferrante, Biblioteca Azul. Segundo volume da Tetralogia Napolitana, gostei muito da prosa dela)
A mais recôndita memória dos homens (Mohamed Mbougar Sarr, Fósforo. Mistério sobre literatura e colonialismo, uma das coisas mais bem escritas que li no ano. Empolgante!)
Ficção 2006-2014 (Alejandro Zambra, Companhia das Letras. Coleção de pequenos romances e contos de um dos meus autores favoritos)
A máquina do caos (Max Fisher, Todavia. Reportagem impressionante sobre como as redes sociais estão transformando o mundo em um lugar mais violento e dividido)
O direito ao sexo: Feminismo no século vinte e um (Amia Srinivasan, Todavia. Ensaios sobre feminismo que não se preocupam em dar respostas certas e fechadas para as perguntas cada vez mais difíceis)
A teologia do livro de Apocalipse (Richard Bauckham, Thomas Nelson. Leitura responsável e intelectualmente honesta do Apocalipse, o livro mais complicado da Bíblia, pensando no contexto de sua recepção e no mundo em que ele foi escrito. Faz bem para qualquer um que tenha crescido em igreja evangélica)
Batismo de sangue (Frei Betto, Rocco. História de como alguns frades resolveram se revoltar contra a ditadura militar e sofreram com a tortura dos carrascos do regime e as cicatrizes psicológicas que ela deixou)
Maniac (Benjamín Labatut, Todavia. Romance ótimo sobre o desenvolvimento da tecnologia e as sombras que ela carrega, da bomba atômica à inteligência artificial)
O colibri (Sandro Veronesi, Autêntica Contemporânea. Romance bonito com esperança para o futuro)
World within a song (Jeff Tweedy, Dutton. Um dos meus compositores favoritos escrevendo sobre as canções favoritas dele)
Latim em pó e Na ponta da língua (Caetano W. Galindo, Companhia das Letras. Dois livros divertidíssimos e introdutórios de linguística, o primeiro sobre a formação do português e o segundo sobre etimologia)
O desatino da rapaziada (Humberto Werneck, Companhia das Letras. Histórias de várias gerações de jornalistas e escritores mineiros, tudo escrito de forma deliciosa)
Te dou minha palavra (Noemi Jaffe, Companhia das Letras. Livro de memórias que retoma as palavras/línguas/livros/canções que formaram a autora. Uma das leituras mais lindas de 2025)
O jornalista e o assassino (Janet Malcolm, Companhia das Letras. Livro brilhante que questiona a ética do ofício jornalístico enquanto faz jornalismo de primeira)
Risque esta palavra (Ana Martins Marques, Companhia das Letras. Linda coleção de poemas)
Não sou poeta (Victor Heringer, Companhia das Letras. Poesia reunida póstuma de um dos meus escritores favoritos, muita coisa maravilhosa)
Postcapitalist desire (Mark Fisher, Repeater. As últimas aulas, brilhantes e empolgantes, que um dos meus críticos favoritos deu antes de morrer)
FILMES
Yi Yi (Edward Yang, 2000. Favorito do ano)
Beijos roubados (François Truffaut, 1968. Comédia romântica linda)
Uma batalha após a outra (Paul Thomas Anderson, 2025. Melhor lançamento do ano)
Juventude transviada (Nicholas Ray, 1955. James Dean gigante, baita ator)
O esquema fenício (Wes Anderson, 2025. Sempre afiadíssimo, acho os últimos filmes dele fantásticos)
Cidadão Kane (Orson Welles, 1941. Se ainda não viu, não deixe o hype te assustar: vale a pena)
Santiago (João Moreira Salles, 2007. Documentário brilhante que coloca o documentarista numa posição desfavorável e desconfortável, grande cinema)
Still walking (Hirokazu Kore-eda, 2008. Filme lindo de família; pra chorar)
Trilha sonora para um golpe de Estado (Johan Grimonprez, 2024. Documentário genial com edição tão veloz e inteligente quanto o jazz que está tocando durante o filme)
Interstellar (Christopher Nolan, 2014. O amor vence, sempre. Filme cristão!)
Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984. Documentário brilhante interrompido pela ditadura militar e retomado 20 anos depois)
Pecadores (Ryan Coogler, 2025. Melhor cena de 2025 tá aqui no meio, filme brilhante)
Uma história real (David Lynch, 1999. Filme singelo e sincero do Lynch)
Coração selvagem (David Lynch, 1990. Filme lindo sobre como amar requer coragem)
Love streams (John Cassavetes, 1984. Outro filme sobre a coragem de amar)
Night and fog (Alain Resnais, 1956. Ensaio visual assustador sobre o Holocausto)
Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954. Um dos melhores filmes já feitos!)
Iracema: uma transa amazônica (Jorge Bodanzky, 1975. Documento e ficção lado a lado no Brasil da ditadura, brilhante)
Eu não me importo se entrarmos para a história como bárbaros (Radu Jude, 2018. Comédia hilária e que infelizmente tem muita ressonância aqui no Brasil, sobre extremistas que orgulhosamente se posicionam do lado errado da história)
Foi apenas um acidente (Jafar Panahi, 2025. Thriller empolgante, merece os elogios que tem recebido)
O agente secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025. Gosto mais cada vez que penso nele. Filme empolgante)
Party girl (Daisy von Scherler Mayer, 1995. Filme mais divertido que assisti no ano, sobre uma bibliotecária festeira em Nova York)
Um completo desconhecido (James Mangold, 2024. As músicas do Bob Dylan carregam o filme, mas não é um problema)
Wake up dead man (Rian Johnson, 2025. Muito raro encontrar representação cristã positiva num filme. Fiquei feliz!)
Os sete samurai (Akira Kurosawa, 1954. Clássico brilhante do mestre japonês)
Ran (Akira Kurosawa, 1985. Clássico brilhante do mestre japonês x2)



Querido, suas listas são inspiradoras. Um feliz ano novo, com o frescor da esperança a abençoar cada um de seus planos.